"Quando uma TV quer público, apela ao grotesco"

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É considerado um dos teóricos da comunicação mais respeitados no Brasil, sobretudo pelas críticas que desfere contra a televisão e a sociedade. O que aconteceu em Cidade dos Artistas, que publicou em 2004.

É um livro escrito juntamente com a minha esposa Raquel Paiva sobre as relações entre a Rede Globo - a indústria brasileira do espectáculo - e o Rio de Janeiro. É sobre a cidade que vive das relações de conhecimento social, de fama.

Como assim?

A TV do Rio cria uma espécie de realidade artificial, que é mediática, veste a cidade e cria um espaço onde até os pobres se sentem artistas. Não é tanto o dinheiro que importa, mas ser famoso. As telenovelas mostram um Rio que não existe.

Qual é o perigo dessa encenação?

Desconhecer a vida real. Você elege pessoas a partir dessa realidade cenográfica. Por exemplo, o actual prefeito, César Maia, só faz obra de fachada. Há uma administração cenográfica um prefeito que realiza, na vida real, o que a telenovela faz no imaginário. E para a população isso é vida real que é pura aparência, brilho e fama. Mas não é essa a realidade, pois você tem de ganhar o salário e comer?

As pessoas vivem numa mentira?

Vivem no irreal como se fosse o real. É como se a vida fosse atravessada por efeitos imaginários - a televisão.

Esse efeito é exclusivo do Rio?

A TV pode provocar esse efeito em qualquer lugar do mundo uma contaminação entre a realidade e o imaginário. Mas no Rio é uma espécie de tradição de festa. Em São Paulo há muita violência, mas não esta cenografia do Rio.

A sociedade está adormecida?

Acho que está anestesiada.

Só no Brasil?

Não, em todo o lugar. Não vejo um debate político forte e uma grande circulação de ideias em Portugal. Hoje, os escritores portugueses são muito enquistados no seu estilo. Lobo Antunes, Saramago são de reconhecimento internacional, mas não são escritores que efectivamente modifiquem a existência e a vida dos portugueses.

Porque é que a sociedade está anestesiada?

Por falta de espaço público, que é tecnicamente ampliado pela televisão, pelos jornais e, ao mesmo tempo, é enfraquecido do ponto de vista político. A crítica não existe. Foi substituída pelo consumo. A TV não quer saber se os programas são bons, mas sim o número de ouvintes, assim como o jornal o número de exemplares que vende. Não há padrões qualitativos de avaliação das coisas.

Isso está relacionado com o fenómeno que aborda em O Império do Grotesco, editado em 2003, que surge no seguimento de A comunicação do Grotesco, de 1973?

Pensava que era um fenómeno provisório, porque foi uma estratégia da TV para arranjar público entre 1969 e 1973. Disputava verbas de publicidade que iam sobretudo para revistas, jornais e rádios. Também não tinha um público de massa. Então a Globo, especialmente, começou a colocar casamentos na TV. O programa do Chacrinha mostrava a mulher mais feia do Rio e um homem com o nariz maior. Coisas absurdas? Isso arregimentou muito público. Hoje o grotesco não desapareceu.

A obra atinge o clímax quando analisa o grotesco na TV.

O grotesco é uma estratégia para rebaixar os valores e facilitar a comunicação. Quando uma TV quer público, apela ao grotesco. A Rede Globo tinha acabado com o grotesco e voltou para concorrer com outras emissoras.

O adjectivo aplica-se ao programa "Fiel ou Infiel", de João Kléber, que está a ser emitido em Portugal?

É extremamente grotesco, porque rebaixa valores, trata emoções humanas de modo a fazer rir com o sofrimento do outro. Há uma clara violência. Um dos dois não sabe que está sendo filmado e mostra um sedutor. Isso é muito batido no Brasil.

Mas faz disparar as audiências?

Em qualquer lugar e de nível cultural mais baixo, que se caracteriza pela iliteracia popular. A pessoa que se diverte com esse programa é a mesma que se diverte com uma piada pesada que mexe com sexualidade ou com a piada racista. O programa acaba por ser ofensivo. Com o passar do tempo, as pessoas acabam sendo pagas, senão poderiam ocorrer verdadeiras tragédias.

Já aconteceu no Brasil?

Não. Mas acontece no programa do Ratinho, que é mais violento. Ele tem um cacete na mão. Já houve brigas e até revólver?

O grotesco destes programas vai ao encontro da tal sociedade adormecida?

Adormece ainda mais a sociedade. Há vários tipos de grotesco. Este não é um grotesco crítico, como o de Charles Champlin e o da caricatura. É para despertar o riso.

Defende que o telespectador é cúmplice e não a vítima?

O telespectador nunca é vítima. Isso é uma grande conversa dos moralistas de TV. Ele vê porque quer e com prazer. Se ele é entrevistado pelos jornais, é muito comum que a família diga que é uma grosseria, mas, na verdade, adere. Então há uma cumplicidade, um piscar de olhos entre a TV e o público.

Mas é o telespectador que tem o comando na mão e o poder de mudar de canal?

É uma ilusão. Escolhe o que lhe parece mais fácil. Quanto mais grosseiro é o programa, mais a pessoa se diverte. O grotesco televisivo é uma educação para a dejecção. A história de a TV educar é conversa.

Acha que essa realidade se vai alterar?

Não vejo perspectiva de mudança. Julgava que, com a TV por cabo, isso terminasse. Mas é o contrário, pois o grotesco está também na TV por Cabo.

E ao nível da imprensa?

Cada vez mais os jovens lêem menos jornais. Os grandes jornais são lidos pela elite. As tiragens estão baixando em qualquer país, porque hoje há uma multiplicidade de fontes de informação que atrai os novos leitores a Net e TV.

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